Nenhuma dor se cura com desuso? O que a ciência diz sobre movimento em 8 passos
Nenhuma dor se cura com desuso? O que a ciência diz sobre movimento, força e recuperação Sentir dor é um dos principais motivos que levam uma pessoa a interromper a prática de exercícios. Afinal, se alguma coisa está doendo, parece lógico parar de utilizá-la até que o desconforto desapareça. Mas será que ficar parado é sempre a melhor estratégia? Durante uma entrevista no especial do Conexão Saúde, realizado no Encontro Nacional de Musculação, em Porto Alegre, o professor e especialista em treinamento Gustavo Zorzi trouxe uma afirmação que merece reflexão: “Nenhuma lesão, nenhuma dor se cura com o desuso.” A frase aborda uma questão importante: em muitos casos de dor musculoesquelética, especialmente persistente, abandonar completamente o movimento pode não ser a melhor solução. Isso não significa ignorar a dor, mas compreender que exercícios, fortalecimento e progressão adequada de cargas podem fazer parte da recuperação. 1. Sentir dor significa que estamos causando uma lesão? Nem sempre. A dor é uma experiência complexa, influenciada por fatores físicos e também por sono, estresse, experiências anteriores e medo de se movimentar. Em determinadas condições, evitar completamente os movimentos pode aumentar a insegurança e contribuir para a perda de capacidade física. Uma revisão sistemática publicada em 2022 no Journal of Orthopaedic & Sports Physical Therapy encontrou evidências de que a terapia por exercícios pode reduzir a dor provocada pelo movimento em adultos com problemas musculoesqueléticos. Portanto, movimentar-se não significa necessariamente agravar uma lesão. Em algumas situações, o movimento faz parte do próprio tratamento. 2. Devemos continuar treinando mesmo sentindo dor? Não necessariamente. A ciência não sustenta a ideia de que qualquer pessoa com dor deva continuar treinando normalmente. Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2025 comparou exercícios realizados com e sem dor em pessoas com dor musculoesquelética crônica. Os pesquisadores não encontraram diferenças claras nos resultados de dor e incapacidade entre as duas abordagens, embora a certeza das evidências tenha sido baixa ou muito baixa. Isso significa que sentir algum desconforto durante determinados exercícios não representa automaticamente um dano. Entretanto, provocar dor também não é necessário para obter resultados. A decisão depende do diagnóstico, da intensidade dos sintomas, da capacidade física e da resposta individual ao treinamento. 3. O problema do repouso prolongado Descansar pode ser necessário, especialmente em determinadas lesões ou fases de recuperação. O problema surge quando o repouso se transforma na única estratégia. A redução prolongada da atividade física pode provocar perda de força, condicionamento e confiança para realizar movimentos cotidianos. Por isso, diretrizes como as do NICE recomendam, em casos de dor lombar, a manutenção das atividades normais dentro das possibilidades individuais. A Organização Mundial da Saúde também considera programas estruturados de exercícios uma opção para pessoas com dor lombar crônica primária, embora ressalte a necessidade de individualização. A mensagem é simples: Não confunda recuperação com imobilidade permanente. 4. O papel da musculação e do fortalecimento Durante a entrevista, Gustavo Zorzi destacou a importância da capacidade muscular, especialmente em pessoas que apresentam problemas nos joelhos e desenvolvem receio de realizar determinadas atividades. Um corpo preparado para determinada demanda tende a lidar melhor com ela do que um corpo que perdeu capacidade por falta de estímulo. Isso não significa que a musculação resolva todas as dores. Entretanto, o treinamento de força pode ser uma ferramenta importante quando corretamente indicado. As diretrizes do American College of Rheumatology e da Arthritis Foundation recomendam fortemente exercícios para pessoas com osteoartrite de joelho e quadril. Entre as possibilidades estão: Caminhada; Exercícios de fortalecimento; Treinamento neuromuscular; Exercícios aquáticos. Nenhuma modalidade é universalmente superior. A escolha depende das condições e necessidades individuais. 5. Carga não é necessariamente inimiga Depois de uma lesão, muitas pessoas passam a enxergar qualquer sobrecarga como uma ameaça. Entretanto, o organismo também precisa de estímulos para desenvolver força e capacidade funcional. O segredo está na dose e na progressão. Uma carga excessiva pode piorar os sintomas. Já uma carga adequadamente ajustada pode contribuir para a adaptação. Por isso, antes de decidir se determinado exercício deve continuar, algumas perguntas são fundamentais: Qual é a intensidade da dor? Em quais movimentos ela aparece? Os sintomas estão melhorando ou piorando? Como o corpo responde nas horas seguintes? Qual carga a pessoa consegue tolerar? Existe algum sinal de alerta que exige avaliação profissional? Essas informações ajudam a construir uma estratégia individualizada, em vez de adotar a lógica de que qualquer dor exige interromper todos os exercícios. 6. Movimento também recupera confiança Uma lesão pode gerar medo de realizar novamente movimentos associados à dor. Com o tempo, esse receio pode levar à redução progressiva das atividades e da autonomia. Por isso, a recuperação não envolve apenas músculos e articulações. Também pode exigir a reconstrução da confiança no próprio corpo. O NICE reconhece a importância dos fatores psicossociais na recuperação de pessoas com dor lombar persistente, incluindo o medo e a evitação de atividades. Recuperar movimento também pode significar recuperar independência e qualidade de vida. 7. O exemplo da dor no joelho Imagine alguém que sente dor no joelho durante a corrida. A primeira reação pode ser abandonar definitivamente a atividade. Entretanto, existem alternativas entre continuar correndo normalmente e nunca mais correr. Dependendo da condição, pode ser necessário: Reduzir temporariamente a distância; Ajustar a frequência dos treinos; Fortalecer a musculatura; Controlar a progressão das cargas; Utilizar atividades alternativas durante a recuperação. Posteriormente, conforme a evolução, a corrida pode ser retomada gradualmente. Essa é uma das principais mensagens da entrevista: não abandonar automaticamente o movimento, mas preparar o corpo para voltar a lidar com determinada demanda. 8. Desuso não é o mesmo que recuperação Descansar, reduzir cargas ou modificar exercícios pode ser necessário. Entretanto, essas estratégias não significam abandonar definitivamente a atividade física. Em muitos quadros musculoesqueléticos, a recuperação envolve encontrar estímulos adequados e aumentar progressivamente a capacidade funcional. É importante lembrar que cada condição exige uma abordagem específica. O que funciona para uma pessoa pode não ser apropriado para outra. Conclusão: o que aprendemos no Conexão Saúde? A afirmação de Gustavo Zorzi não deve ser interpretada como uma
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