Excesso de peso infantil: 390 milhões de crianças e adolescentes são afetados no mundo

Excesso de peso infantil: 390 milhões de crianças e adolescentes são afetados no mundo

Excesso de peso infantil: 390 milhões de crianças e adolescentes são afetados no mundo

O excesso de peso infantil tornou-se um dos grandes desafios da saúde pública mundial. Mais de 390 milhões de crianças e adolescentes entre 5 e 19 anos apresentavam excesso de peso em 2022, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). Dentro desse grupo, aproximadamente 160 milhões viviam com obesidade.

A mudança ocorreu rapidamente. Em 1990, cerca de 8% das crianças e adolescentes dessa faixa etária apresentavam excesso de peso. Em 2022, a proporção chegou a aproximadamente 20%.

Mas o que está por trás desses números?

O tema foi discutido no Conexão Saúde com a nutricionista infantil Ana Carolina Engel, que chamou atenção para uma transformação importante no ambiente em que as crianças estão crescendo.

Excesso de peso infantil não é simplesmente “comer demais”

Explicar a obesidade infantil apenas pela quantidade de comida ou pela falta de exercício é uma simplificação.

A obesidade é uma doença crônica e multifatorial, influenciada pela interação entre fatores biológicos, comportamentais, sociais e ambientais.

A rotina moderna reúne vários elementos que podem favorecer o excesso de peso infantil: maior disponibilidade de alimentos ultraprocessados, produtos altamente palatáveis, aumento do comportamento sedentário, presença constante de telas e menos oportunidades para atividades e brincadeiras fisicamente ativas.

Isso significa que não existe apenas um responsável pelo problema.

Qual o papel dos alimentos ultraprocessados?

A alimentação das crianças mudou nas últimas décadas.

Produtos ultraprocessados oferecem praticidade e geralmente apresentam características sensoriais bastante atrativas, podendo ocupar um espaço significativo na alimentação cotidiana.

Estudos observacionais têm encontrado associação entre maior consumo desses produtos e indicadores de adiposidade em crianças e adolescentes. Entretanto, é necessário interpretar essa relação com cuidado.

Uma revisão sistemática publicada em 2024, envolvendo 23 estudos, encontrou resultados heterogêneos. Portanto, embora existam sinais de associação, ainda são necessários estudos de maior qualidade para compreender melhor a relação causal.

Na prática, a recomendação continua sendo favorecer uma alimentação baseada predominantemente em alimentos in natura ou minimamente processados, sem transformar a alimentação infantil em uma sequência de proibições.

Telas e comportamento sedentário também entram nessa equação

Televisão, celular, tablet, computador e videogame modificaram profundamente a rotina infantil.

A questão não é simplesmente demonizar a tecnologia. O problema aparece quando o tempo sedentário ocupa grande parte do dia e substitui oportunidades de movimento, brincadeiras, esportes ou outras atividades.

A OMS recomenda que crianças e adolescentes de 5 a 17 anos realizem, em média, pelo menos 60 minutos diários de atividade física moderada a vigorosa ao longo da semana, além de limitar o comportamento sedentário, especialmente o tempo recreativo diante das telas.

A literatura também encontrou associação entre maior tempo de tela e maior probabilidade de sobrepeso e obesidade entre adolescentes.

Isso não significa, porém, que o celular isoladamente provoque obesidade. Tempo de tela, sono, alimentação, atividade física, ambiente familiar e condições socioeconômicas podem interagir entre si.

Cuidado para não transformar prevenção em culpa

Existe outro ponto fundamental quando falamos sobre excesso de peso infantil: a relação da criança com o próprio corpo.

Prevenir obesidade não significa colocar crianças indiscriminadamente em dietas restritivas, criar medo de determinados alimentos ou utilizar vergonha como estratégia para provocar mudanças.

Seletividade alimentar, insatisfação corporal, preocupação excessiva com peso e aparência e transtornos alimentares também podem surgir durante a infância e adolescência.

Por isso, a avaliação deve considerar não apenas peso e alimentação, mas também crescimento, desenvolvimento, comportamento alimentar, saúde emocional e contexto familiar.

O problema é mundial

Dados da UNICEF mostram a dimensão da transformação.

Entre 2000 e 2022, o número de crianças e adolescentes entre 5 e 19 anos vivendo com excesso de peso praticamente dobrou, passando de aproximadamente 194 milhões para 391 milhões.

A organização também aponta que mais de 80% dessas crianças e adolescentes vivem em países de baixa e média renda.

Em 2025, segundo a UNICEF, a prevalência global de obesidade entre crianças e adolescentes de 5 a 19 anos ultrapassou pela primeira vez a de baixo peso.

Estamos, portanto, diante de uma profunda transformação do cenário nutricional mundial.

A prevenção do excesso de peso infantil começa em casa?

A família exerce grande influência, mas não deve receber toda a responsabilidade.

Dentro de casa, algumas atitudes podem contribuir para a construção de hábitos mais saudáveis:

  • oferecer maior variedade de alimentos;
  • estabelecer uma rotina para as refeições;
  • favorecer água em vez de bebidas açucaradas;
  • incentivar brincadeiras, esportes e atividades físicas;
  • reduzir períodos excessivamente longos de comportamento sedentário;
  • evitar utilizar alimentos constantemente como recompensa;
  • dar exemplo através dos próprios hábitos.

Crianças aprendem não apenas pelo que os adultos dizem, mas também pelo comportamento que observam diariamente.

O ambiente também influencia as escolhas das crianças

Existe ainda um desafio coletivo.

Publicidade de alimentos, preço, disponibilidade de produtos, rotina dos pais, estrutura das cidades, segurança dos espaços públicos e oportunidades para brincar e praticar atividades físicas fazem parte da equação.

A UNICEF chama atenção justamente para os ambientes alimentares aos quais crianças e adolescentes estão expostos.

Quando produtos de baixa qualidade nutricional estão amplamente disponíveis, são intensamente divulgados e possuem acesso mais fácil do que opções nutritivas, as escolhas individuais passam a acontecer dentro de um ambiente que pode favorecer o consumo desses produtos.

Por isso, enfrentar o excesso de peso infantil exige mais do que simplesmente dizer para uma criança comer menos.

Conclusão

Os mais de 390 milhões de crianças e adolescentes com excesso de peso representam muito mais do que uma estatística.

Estamos falando de uma geração que cresce em um ambiente marcado por mudanças profundas na alimentação, tecnologia, comportamento sedentário, sono, rotina familiar e oportunidades de movimento.

Como discutimos no Conexão Saúde com a nutricionista infantil Ana Carolina Engel, cuidar da alimentação infantil significa olhar além do prato.

É preciso observar a comida, o movimento, as telas, a família, o ambiente e principalmente a relação que a criança está construindo com a alimentação e com o próprio corpo.

A prevenção precisa começar cedo, mas sem transformar saúde em medo, alimentação em culpa ou o corpo da criança em um problema.

O objetivo não deveria ser criar crianças preocupadas em emagrecer. Deveria ser criar condições para que elas cresçam mais saudáveis.


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